31/05/2008

Freely

Hoje eu me declarei férias. Perdão, mas hoje, somente hoje, eu vou ter que quebrar com todas as estruturas. Hoje eu não quis acordar cedo. Hoje eu perdi estágio, academia, leitura. Hoje eu levantei da cama e pensei: eu quero e vou quebrar todas as minhas estruturas, sem risco de conseqüências.

Hoje eu quero me balançar em uma rede na beira de um mar maravilhoso, aquele azul reluzente e um pôr-do-sol quase que insinuante, me dizendo: “hoje você vai esquecer de tudo, até de você mesma.”.

Hoje eu quero um beijo daquela minha avó distante, daquele rapaz carente, daquela amiga ausente. Hoje eu vou escrever sem ter medo de me expor. Eu sempre escrevi, sempre tive essa mania de me desnudar a cada primeiro instante de dor ou de excitação. Meu medo sempre foi transparecer eu mesma aos outros.

Mas existem momentos que você deve parar e escutar, com atenção e paciência, sua própria voz.
Hoje a minha voz diz: “mesmo que tudo se acabe, mesmo que o céu, a terra, o sol, o ar... beirem a ruína, a quase que uma ruína esplendorosa, eu vou respirar.” Primeiro respirar após um coma.

Assim, ponho o som as alturas com a banda Explosions in the Sky, e começo a pensar, pensar, pensar, pensar, ai que dor de saudade vezenquando, aquela dorzinha assim de, que vontade de ficar com mamãe, de dizer bom dia, de preparar um café preto e eventualmente, até escutar as suas queixas e me zangar com a sua intempestividade. E eis que ela me liga neste momento, em quase que um entrelaçar de sentimentos, em que um pensa no outro e eles se encontram, mesmo que estejam longe, longe.

Eu acredito nessas coisas. Aliás, eu acredito em muitas coisas. Eu acho válido, sim, válido, acreditar. Eu não queria ser daquelas pessoas que não acreditam nas pessoas, nas coisas, nos lugares. Eu gosto de ser assim, apesar de saber que muitas vezes me machuco com esse meu excesso de doçura.

Deve ser ruim, penso, desistir de tudo assim. Eu não – não desisto porque desistir não é nobre, e eu sou muito muito doce para desistir. Que seja doce.

Escrevendo isso, me lembro de um dos autores que gosto de ler, e que aliás, li um texto dele ontem. Nele dizia que havia um dragão que não conhecia o paraíso. Conclui que esse mesmo dragão, que morava com ele, também morava comigo. O meu dragão, por vezes, destrói aqueles velhos morangos da horta. Ele mofa meus pensamentos, me construindo e desconstruindo. Eu sinto falta dele todos os dias, e quando ele não vem, eu chego a não cuidar de mim. Hoje o meu dragão está comigo, eu sinto o cheiro de alecrim, e talvez por ele, eu esteja assim quebrando todas as estruturas. Ele não vem sempre. Ele quase não vem.

“Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.”

Talvez eu seja um dragão. Eu prefiro a luta da construção do que a aceitação do fingimento. Eu não sou positivista, de-fi-ni-ti-va-men-te. Eu procuro ver a negatividade como uma outra forma de se lidar com o mundo, e com ela, eu me desconstruo construindo. É na luta que eu me construo.

Eu tenho interesses, claro, todos têm. Seria fácil se pudéssemos nos relacionar com as pessoas sem que esperássemos nada, mas tenho – temos – emoções. Seria fácil se pudéssemos produzir saberes sem o mínimo de subjetividade. Guarde isso, embora até às vezes doa: temos, tenho, tens – emoções, e é impossível se desfazer disso.

Eu não quero construir algo já visto. Não pelos outros, mas sim por mim mesma. Eu não quero ser a mesma, eu me inovo todos os dias, eu sou sempre uma nova, misturada com uma velha e uma futura.
Eu vivo em um dinamismo: ação, construção, desconstrução, transformação. Mas não estou só, tenho os outros. Ajo, construo, desconstruo, transformo – não comigo mesma, mas em uma relação coletiva. Às vezes eu penso que me fechar é a melhor saída, mas escute, caro amigo, nunca será a melhor saída. Fugir de si mesmo – e dos outros – é mastigar, goela a baixo, morangos mofados. Eu não quero o mofo, eu quero o novo, e também não quero só o novo, quero o mofo, o novo, e tudo o mais – para não ser naquela velha rotina de ilusões, como diria meu amigo Felipe:

para me livrar de tanto mar / resolvi espairecer, aparecer sem avisar / pra não ser sempre na mesma rotina de ilusões
E é tudo isso que não me faz desistir, não só tudo isso, mas alguma parte, sim. ....Enfim, o papo tá legal, mas agora eu tenho um almoço para fazer: carne para cozinhar, temperar, arroz para esquentar, suco para preparar, e já são 11:09. Tenho estágio 13:00, estudo às 16:00, e preciso andar muito hoje para superar a perda da academia, e pensando assim até parece que o meu dragão foi embora, me fazendo pensar em todas essas obrigações novamente...