15/07/2008

2046

timing is everything

eu não vou começar outro texto falando do quanto eu posso ser desprezada, ignorada, mal amada, ou qualquer outra coisa. eu não vou discutir a metafísica dos meus sentimentos, eu não vou calcular teorias para ser feliz. eu não vou somar lágrimas. eu não vou culpar o mundo. eu não preciso abrir os olhos outra vez. o tempo é tudo, uma vez disseram. sim, o tempo é tudo.


sento-me aqui mais uma vez nesse lugar obscuro, coloco o teclado nas pernas (...) não penso em nada, minhas mãos apenas seguem a sincronia desses movimentos. sinto saudade daquela velha máquina de escrever, daquele cigarro nunca tragado, daquela noite nunca vivida. sinto saudade de qualquer coisa que agora nem sei o que é.

não encontro uma posição adequada para escrever. na verdade, a única coisa que eu gostaria era de não poder pensar em nada, não olhar nada, não ouvir nada, apenas deixar isso me levar, deixar esses sentimentos sairem de mim, transbordarem nesse pequeno local, nesse pequeno itinerário de nostalgias.

sinto vontade de ser caio fernando abreu, sinto vontade de ser clarice lispector, sinto vontade de ser um pouco bukowski, e tanto dostoievski, sinto vontade de ser qualquer um deles, e ao mesmo tempo não sinto vontade de nada. não quero ler, não quero escutar, não quero nem saber o que estou digitando nesse exato momento.

olho a janela e tudo que vejo são telhados. os verdes mesclam com os azuis, os pássaros voam sem ter para onde ir, sem pensar no caminho a seguir. de longe eles parecem felizes, mas nada se sabe sobre eles, além de sua simples fisiologia e anatomia.

eu queria poder pular essa janela, encontrar essas micropartículas infindáveis por aí, eu queria poder não precisar pensar em nada. eu queria ser ar, vento, chuva, ... eu queria ser todos os elementos e ao mesmo tempo não! eu não quero nada, acho indigno.

eu queria poder dizer para as pessoas devolverem os meus laços, queria poder estar só e não reclamar um segundo sequer que estou só, eu queria poder não pensar que sou talvez um emaranhado de mil pretos, cinzas, brancos, vermelhos, verdes, azuis (...)

eu queria poder não apertar o backspace, eu queria voltar no tempo e fumar meu cigarro em paz. eu não tenho cigarro, eu não sinto vontade e não me sinto confortável.

eu sou na verdade o que eu não sou, o que eu sou, o que dizem que eu não sou e o que dizem que eu sou. eu sou tudo isso e talvez não seja nada disso, porque palavras não caberiam e seria inexplicável por demais...

estou cansada de procurar atrás dessas portas, janelas, muros (...) estou cansada de brincar de esconde-esconde nessas florestas cinzas, estou cansada dos seus sentimentos, estou cansada dos meus sentimentos, estou cansada de precisar, de faltar, de não ter e de ter também.

estou desprezada como um cão sem osso, sozinha como um tinta sem par, perdida como um desviante viajante, estou aqui, estou lá, estou em todos os lugares, estou contigo, estou com ele, estou com ela.

não conceituo a minha vida, a minha orientação, os meus caminhos, os meus gostos, os meus amores. eu gosto do que em mim há no mundo, eu gosto do mundo e das cores e dos clichês e das palavras que me fazem continuar lúcida.

escrever é resistir. estou resistindo.

24/06/2008

coffee break



what's is going on?

cada vez mais longe. pretendo, com minha força, ou com a minha aparente força, continuar assim. onde isso vai me levar? pergunto. não sei. mas não quero mais doer em mim. não quero mais sentir. não quero mais me sentir vulnerável. eu quero que isso continue dessa maneira. eu não quero mais, eu não gosto mais, eu quero me sentir sozinha e não ter que gritar a sete portas que estou sim, sozinha..
que talvez sempre estive, mas não soube reconhecer. isso não se resume a escolhas, não é? eu espero que ninguém volte, há alguém aqui. por favor diga-me o porquê e quando, isso não é uma escolha.

eles podem sentir os seus mundos girando.
mas não girem ao meu redor.
eu nunca quis. eu não quero.

21/06/2008

fljótavík


para não me alongar muito, somente recomendo o novo cd do sigur rós.

16/06/2008

tonight i won't say "tonight it's ok"




"Always had a choice but i cannot be mislead like that.." Mew - Snowflake

Recomendações a parte, Mew traduz tudo o que eu ando sentindo nos últimos tempos. Blunted, exhausted. Não me sinto bem nos seus sons confortáveis. Eu nunca me sinto bem confortavelmente. Eu vivo na contradição. Eu sou uma dialética.

É uma pena que o mundo não entenda isso, mas não me importo.

12/06/2008

para um lugar desconhecido

uma trilha para um lugar desconhecido, porque...
sem música, não haveria vida. (nietzsche)

Convido-te para uma viagem no tempo e no espaço, mil músicas ou nenhuma música para encher seus ouvidos e aos poucos, - carinhosamente e delicadamente – decifrar-me.


• Azure Ray – Sleep

Anda sendo difícil dormir. As mudanças abalam as minhas estruturas quando acontecem na minha vida. Noite passada, tentei encontrar uma posição na rede, olhei pro teto e pensei: “Devo dormir! Como vou agüentar tudo amanhã?”. De fato cobramos muito de nós mesmos, e até penso às vezes: se não cobrasse tanto assim de mim provavelmente teria mais paz. Mas como disse antes, eu sou um dragão que não conhece o paraíso, eu não procuro a paz, apesar de gostar da paz. Nesses espaços loucos, no meu quarto – eu posso ir e voltar – e mudar, e posso até eventualmente dormir, mas apenas eventualmente.

• Devendra Banhart – Freely

Liberdade para o meu coração, eu quero viver dessa maneira.
Sim, tenho um carinho enorme pela minha liberdade. O que chamo de liberdade? Nem eu sei direito o que é, mas sei que quando estou longe – e presa, e sem voz – meu corpo grita para que eu me liberte novamente. Eu quero ter a liberdade de gritar, porque há sim o direito ao grito, a voz, já como diria Lispector. Há o direito a vida, a morte, ao amor. Não preciso que as pessoas me coloquem em um lugar, me encaixem em um quadro. Na verdade não é questão de precisar, é uma questão de não se preocupar. Não me preocupo. Eu sou muito mais do que uma caixa, do que um lugar, do que uma palavra, eu sou muito mais do que qualquer conceituação. Lembro-me então quando pensamos nas Instituições e naquela dimensão que não é visível, que só pode ser vista produzindo análise. Eu sou como essa dimensão não vista. Na verdade eu sou sentida. Quer me conhecer? Sinta-me, com todo o seu ser, com todos os seus órgãos, entre em contato, não deixe que essas janelas, paredes, muros, possam de alguma forma me transformar em uma dimensão visível.

• Au Revoir Simone – The Lucky One

Ando fatigada de sedes insaciáveis e buscas inúteis, como diria o Caio F. Ando meio fatigada desse mundo líquido. Algo como: te conheço hoje, amanhã te ligo, depois te beijo, e depois, logo depois depois, não te conheço mais. Ando meio fatigada de sonhar um "estarmos juntos". Ando chateada, ando muito chateada com essa efemeridade de sentimentos... mas, porém, entretanto, deixe o sol brilhar, deixe o sol chegar, para mostrar que o amanhã será inventado. Penso, com calma, e busco respostas: não importa, vou deixar o sol brilhar. Se as pessoas soubessem que precisamos – sim, sim – de um feedback, que como diria novamente Caio F, temos emoções, e não ter emoção significa viver em vazios, viver autodestruições. Não me autodestruo, começando principalmente pela minha fé, por que existe coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? caiof. novamente.

• Azure Ray – Safe and Sound

Jogue sua dor para longe e encontre a si mesmo nesse som.. o amor é como perdemos, não como encontramos. Não dá para fugir de si mesmo. Não dá para ser neutro. Não cobre isso de você mesmo, nada é perfeito. Reconheça-se na sua perdição.

• Feist – La Meme Histoire

Amantes são encontrados e perdidos procurando por mais uma oportunidade, tudo que eu sei é que estamos todos na mesma dança.
Se pudéssemos entender que estamos mesmo todos em uma mesma dança. Que dançamos pela vida. Que dançamos, e nessa dança não há diferença entre eu e você, pois estamos na mesma dança, e estamos sim procurando por alguma coisa.

• Explosions In The Sky – First Breath After Coma

Primeiro respirar após um coma. Tudo começa calmo, tudo está em calma, tente respirar, tente viver. Tento viver, tento respirar, tento. Descubro-me em um coma, um estaticismo que não sei explicar. Tento gritar, tento abrir os olhos, tento respirar. Calma, tudo está em calma, tente respirar, tente viver. Estou caindo, estou indo para algum lugar inesperado, me perdi no caminho e não tenho mapa algum. Por favor, me ajude, por favor, me socorre porque hoje eu nada sou além de pedir suavemente para que você venha. Tente respirar, tente viver. Preciso viver, preciso respirar. Os sons da guitarra ecoam, grito, tento levantar-me, tento esquecer-me para lembrar-me. Tento, tento, cada vez mais "em uma tentativa abrupta" ser algo a mais do que esse simples respirar após um coma, e eis que paro, paro, e um som estranho vem a mim como uma linha demarcada em um aparelho, uma linha reta com um som agudo, uma linha que traduziria toda a minha tentativa frustrada de continuar. Após cinco minutos de tentativas, após quase trinta segundos de mais tentativas, após quase os oito minutos de tentativas abruptas, uma chance, apenas uma chance para sobreviver. Falta-me um minuto, preciso respirar, preciso respirar.
De repente.. quase que em um estarrecedor entrelaçar entre guitarras e linhas em um aparelho qualquer, respiro. Respiro urgentemente como se a qualquer momento fosse roubado de mim o direito de viver. Um primeiro respirar após um coma.

• Kings Of Convenience – Summer On The Westhill

Eu abaixo meu rosto e deixo meus olhos flutuarem aonde quiserem flutuar… eu me sinto em casa aqui, no meio de nenhum lugar.
Eu quero uma casa no meio de nenhum lugar, eu terei paciência e encontrarei o meu lugar.


• Explosions In The Sky – Home

Explosões no céu! Casa... Preciso tanto da minha casa, da minha vida. Preciso tanto de qualquer coisa que não sei explicar, preciso do tudo e do nada, e essa música resgata o meu tudo e o meu nada. Preciso da minha mãe, preciso da minha cama, da minha janela, tão longe e tão perto. Preciso de qualquer coisa que me faça lembrar novamente que ainda existem interstícios, que ainda existe esperança, fé (...) que amanhã vai amanhecer e eu vou lembrar daquele pôr-do-sol da minha janela, daquela minha força enorme de continuar, porque o barco pode estar furado, mas vou remar, remar, remar, remar, algum dia, com certeza, chegarei ao outro lado. Preciso de você que nunca encontrei, que um dia eu quis procurar, mas que desisti no primeiro momento... pois sei que você não está nessas caixas, nesses quadros. Você está entre, está nos interstícios. Preciso talvez de nenhum lugar onde mesmo assim eu me sinta em casa. Eu não quero essas paredes amarelas. Eu não quero entrar aqui e sentir que estou perdendo parte de mim, e às vezes pareço estar. Entenda, me alimento sentindo, sentindo intensamente. Tenho sede de sentir. Tenho fome de viver.

• Sigur Rós – Vidrar Vel Til Loftarasa

Fecho (ou abro) essa coletânea com Sigur Rós. Para mim, esse som é mais autêntico e mais visceral. Sigur Rós começa lá de dentro, percorre todos os seus sentidos, e enfim, chega aos seus ouvidos. O som baixo adquire uma força enorme com o passar do tempo e grita, grita, grita, como se um sonho fosse virar realidade a qualquer momento. Traduzo esse lugar como Sigur Rós. Começa lá de dentro, percorre tudo o que eu sou, e depois chega ao exterior. A força enorme significa a minha realização e a minha eventual partida. Talvez por isso, por esse ‘de-dentro-fora’, a minha sintonia com esse lugar seja tão difícil.

Mas não desisto, pois sei que chegarei a algum lugar, e que se for a nenhum lugar – ainda assim me sentirei em casa.
Tivemos um sonho, tivemos tudo...

01/06/2008

Careful now

Longe demais para simplesmente esquecer que todo colorido tem um dolorido. Eu vou falar com calma para que você entenda (...)
Tenha cuidado agora, você vai se machucar, você vai machucar um outro alguém.