timing is everything
eu não vou começar outro texto falando do quanto eu posso ser desprezada, ignorada, mal amada, ou qualquer outra coisa. eu não vou discutir a metafísica dos meus sentimentos, eu não vou calcular teorias para ser feliz. eu não vou somar lágrimas. eu não vou culpar o mundo. eu não preciso abrir os olhos outra vez. o tempo é tudo, uma vez disseram. sim, o tempo é tudo.
sento-me aqui mais uma vez nesse lugar obscuro, coloco o teclado nas pernas (...) não penso em nada, minhas mãos apenas seguem a sincronia desses movimentos. sinto saudade daquela velha máquina de escrever, daquele cigarro nunca tragado, daquela noite nunca vivida. sinto saudade de qualquer coisa que agora nem sei o que é.
não encontro uma posição adequada para escrever. na verdade, a única coisa que eu gostaria era de não poder pensar em nada, não olhar nada, não ouvir nada, apenas deixar isso me levar, deixar esses sentimentos sairem de mim, transbordarem nesse pequeno local, nesse pequeno itinerário de nostalgias.
sinto vontade de ser caio fernando abreu, sinto vontade de ser clarice lispector, sinto vontade de ser um pouco bukowski, e tanto dostoievski, sinto vontade de ser qualquer um deles, e ao mesmo tempo não sinto vontade de nada. não quero ler, não quero escutar, não quero nem saber o que estou digitando nesse exato momento.
olho a janela e tudo que vejo são telhados. os verdes mesclam com os azuis, os pássaros voam sem ter para onde ir, sem pensar no caminho a seguir. de longe eles parecem felizes, mas nada se sabe sobre eles, além de sua simples fisiologia e anatomia.
eu queria poder pular essa janela, encontrar essas micropartículas infindáveis por aí, eu queria poder não precisar pensar em nada. eu queria ser ar, vento, chuva, ... eu queria ser todos os elementos e ao mesmo tempo não! eu não quero nada, acho indigno.
eu queria poder dizer para as pessoas devolverem os meus laços, queria poder estar só e não reclamar um segundo sequer que estou só, eu queria poder não pensar que sou talvez um emaranhado de mil pretos, cinzas, brancos, vermelhos, verdes, azuis (...)
eu queria poder não apertar o backspace, eu queria voltar no tempo e fumar meu cigarro em paz. eu não tenho cigarro, eu não sinto vontade e não me sinto confortável.
eu sou na verdade o que eu não sou, o que eu sou, o que dizem que eu não sou e o que dizem que eu sou. eu sou tudo isso e talvez não seja nada disso, porque palavras não caberiam e seria inexplicável por demais...
estou cansada de procurar atrás dessas portas, janelas, muros (...) estou cansada de brincar de esconde-esconde nessas florestas cinzas, estou cansada dos seus sentimentos, estou cansada dos meus sentimentos, estou cansada de precisar, de faltar, de não ter e de ter também.
estou desprezada como um cão sem osso, sozinha como um tinta sem par, perdida como um desviante viajante, estou aqui, estou lá, estou em todos os lugares, estou contigo, estou com ele, estou com ela.
não conceituo a minha vida, a minha orientação, os meus caminhos, os meus gostos, os meus amores. eu gosto do que em mim há no mundo, eu gosto do mundo e das cores e dos clichês e das palavras que me fazem continuar lúcida.
escrever é resistir. estou resistindo.
eu não vou começar outro texto falando do quanto eu posso ser desprezada, ignorada, mal amada, ou qualquer outra coisa. eu não vou discutir a metafísica dos meus sentimentos, eu não vou calcular teorias para ser feliz. eu não vou somar lágrimas. eu não vou culpar o mundo. eu não preciso abrir os olhos outra vez. o tempo é tudo, uma vez disseram. sim, o tempo é tudo.
sento-me aqui mais uma vez nesse lugar obscuro, coloco o teclado nas pernas (...) não penso em nada, minhas mãos apenas seguem a sincronia desses movimentos. sinto saudade daquela velha máquina de escrever, daquele cigarro nunca tragado, daquela noite nunca vivida. sinto saudade de qualquer coisa que agora nem sei o que é.
não encontro uma posição adequada para escrever. na verdade, a única coisa que eu gostaria era de não poder pensar em nada, não olhar nada, não ouvir nada, apenas deixar isso me levar, deixar esses sentimentos sairem de mim, transbordarem nesse pequeno local, nesse pequeno itinerário de nostalgias.
sinto vontade de ser caio fernando abreu, sinto vontade de ser clarice lispector, sinto vontade de ser um pouco bukowski, e tanto dostoievski, sinto vontade de ser qualquer um deles, e ao mesmo tempo não sinto vontade de nada. não quero ler, não quero escutar, não quero nem saber o que estou digitando nesse exato momento.
olho a janela e tudo que vejo são telhados. os verdes mesclam com os azuis, os pássaros voam sem ter para onde ir, sem pensar no caminho a seguir. de longe eles parecem felizes, mas nada se sabe sobre eles, além de sua simples fisiologia e anatomia.
eu queria poder pular essa janela, encontrar essas micropartículas infindáveis por aí, eu queria poder não precisar pensar em nada. eu queria ser ar, vento, chuva, ... eu queria ser todos os elementos e ao mesmo tempo não! eu não quero nada, acho indigno.
eu queria poder dizer para as pessoas devolverem os meus laços, queria poder estar só e não reclamar um segundo sequer que estou só, eu queria poder não pensar que sou talvez um emaranhado de mil pretos, cinzas, brancos, vermelhos, verdes, azuis (...)
eu queria poder não apertar o backspace, eu queria voltar no tempo e fumar meu cigarro em paz. eu não tenho cigarro, eu não sinto vontade e não me sinto confortável.
eu sou na verdade o que eu não sou, o que eu sou, o que dizem que eu não sou e o que dizem que eu sou. eu sou tudo isso e talvez não seja nada disso, porque palavras não caberiam e seria inexplicável por demais...
estou cansada de procurar atrás dessas portas, janelas, muros (...) estou cansada de brincar de esconde-esconde nessas florestas cinzas, estou cansada dos seus sentimentos, estou cansada dos meus sentimentos, estou cansada de precisar, de faltar, de não ter e de ter também.
estou desprezada como um cão sem osso, sozinha como um tinta sem par, perdida como um desviante viajante, estou aqui, estou lá, estou em todos os lugares, estou contigo, estou com ele, estou com ela.
não conceituo a minha vida, a minha orientação, os meus caminhos, os meus gostos, os meus amores. eu gosto do que em mim há no mundo, eu gosto do mundo e das cores e dos clichês e das palavras que me fazem continuar lúcida.
escrever é resistir. estou resistindo.


