22/07/2008

Cartas #1


Querida Annie,



Eu poderia começar isso de diversas formas, mas nada te faria chorar tanto quanto essas exatas palavras: Minhas noites com tortas Blueberry.

Não consigo enxergar as palavras, meus olhos ardem, meu nariz me incomoda. Mudei de posição só para poder te escrever um pouco, querida. Eu não sei quem você é, não sei o que você gostaria de ser, mas enquanto estou digitando essas palavras ao vento, finjo que você existe por um só momento, mesmo que em Havana, em Bolívia, em Japão, China, Austrália. Seja lá onde você estiver, meu bem.. por favor me ouça paulatinamente, eu preciso disso agora.

Lembro-me daquele dia quando você sentou na cadeira do bar em vermelho. Você estava realmente convencida que precisava me falar alguma coisa muito importante, e eu, comovido pela sua dispersão, tentei me concentrar para que você entendesse que eu estava sim, bastante apto a ouvir. Depois de muito olhar para mim, tocar meus lábios e me abraçar forte, você sussurrou no meu ouvido esquerdo: 'once i wanted to be the greatest'.

Poderia enumerar várias causas para esse sussurro, que tanto comoveu-me como um diabo, tanto que uma flor na janela me fez chorar. Não, eu não quis, meu bem, estar de alguma forma conectado à você por todos esses anos, mas os seus postais não negavam, os seus postais diziam: nossas letras queiam, burns like the sunset.

Não poderia explicar qualquer um dos nossos sentimentos, pois não entendia, jamais entenderia o que é estar conectado à alguém. Não entendia que o amor ultrapassaria anos, meses, dias, distâncias, épocas, se assim estivesse disposto a ultrapassar, resistir.

Não me importa que eu esteja aqui com meus olhos vermelhos.. talvez vítima de uma alergia, talvez vítima de uma música bonita ou talvez vítima do meu próprio coração. Não me importa que eu esteja aqui imaginando o quanto eu sinto sua falta, o quanto eu ligo pros bares te procurando, te pedindo por favor para voltar. Você não vai voltar porque você nunca veio, tento compreender e interiorizar para mim, como também não... Talvez eu não veja voltar aquela que eu conheci, mas sim uma nova pessoa, diferente daquela já quebrada ou com um quê de infinitude no olhar.

E assim você vai viajando pelo mundo, cortando arranhas-céus, se perdendo ao mesmo tempo que se encontrando. Você me ensinou a confiar, eu te ensinei a confiar.. "Eu poderia falar qualquer coisa a você...." Eu também poderia, tento dizer. Eu tenho todas as imagens na minha cabeça, todas as cenas, cores, gestos (...) Só resta que você venha para que tudo isso aconteça.

Apenas hoje eu vou te esperar na minha cama azul, vou tragar aquele cigarro, te oferecer mais uma torta Blueberry, beijar a sua boca com gosto doce e amável que você sempre teve, desde já, desde sempre. Talvez quando você voltar, quando cruzar essas ruas tão difíceis de serem atravessadas, eu estarei do outro lado, e te direi: 'you're always the greatest...'