11/04/2009

O primeiro andar

Era uma dessas manhãs em que não se consegue suportar o brilho de viver. Acordar fazia sentido quando a luz intacta se transformava em cinza acabada. E então, acordavam. Eram dois garotos e uma garota, em meio a uma casa estranha. Eles tentavam suportar o brilho posterior, posterior, posterior, mas às vezes a claridade era tão grande que doía dentro, bem dentro assim.

A casa estava vazia e tinha poucas frestas de iluminação. Os buracos nas paredes e nos telhados eram olhos claros que circundavam a dimensão interior. Eles não acreditavam nas dimensões, mas tinham plena certeza que existiam andares.

O primeiro andar não existia, dizia a garota. Mas, o primeiro andar? Claro que o primeiro andar existia. E brilhava: era o que dizia os outros dois garotos. Todas as tardes eles iam ao primeiro andar, e encontravam lá um pequeno marinheiro flutuante. O marinheiro se chamava José Ubaldo, e ele havia saído das profundezas dos mares do atlântico em 1876. Claro, José Ubaldo não havia morrido, pois ele brilhava mais do que todas as frestas de claridade.

Os dois garotos e José Ubaldo conversavam todas as tardes, por volta das 17 hs. O marinheiro chamava os garotos de caminhantes. Uma vez, um dos garotos começou a querer deixar a casa e ser caminhante, mas a claridade lá fora destruía qualquer possibilidade de saída. Foi aí que o garoto perguntou ao marinheiro por que a luz doía tanto, e o marinheiro tentou explicar que talvez o que doesse não fosse a luz, mas os olhos que não estavam acostumados a ver. Às vezes basta saber enxergar.

Em uma tarde dessas, José Ubaldo contou-lhes uma história fascinante sobre um relógio que falava. Após isso, os garotos queriam tanto tanto o relógio falante que decidiram procurar por todos os andares da casa. Eles começaram pelo porão e foram até algum piso não inimaginado, mas aos poucos as dimensões foram se perdendo e eles já não conseguiram levar adiante a busca. A busca se chamou Marinheiro #174.

Aos poucos, a garota começou a ficar sozinha. Ela passava as manhãs, tardes e noites, refletindo sobre a posição dos azulejos da casa. Por vezes, elaborava modos de estruturar a casa, de forma a tentar desvendar o mistério das dimensões. Mas não, nada fazia sentido nas posições, dimensões, claridades [..] da casa. E ela não sabia como sair, e quando tentava, algo mais forte a impelia de volta.

Eles estavam presos. E talvez não existisse o primeiro andar, como também existisse. Talvez eles não estivessem, na verdade, presos. Talvez só acreditassem nas dimensões por pura solidão ou sentimento de desolação. Talvez tudo, talvez nada. Talvez você seja o marinheiro, e os dois garotos sejam a sua imaginação... ou talvez você seja a garota tentando desvendar o mistério das dimensões. Talvez você, talvez eles [...] Ou talvez nada disso: é só uma história escrita em uma manhã de sábado. É só uma história, é só uma história. Mas, talvez, [...] seja você fugindo do primeiro piso, ou tentando encontrar o relógio falante.




17/02/2009

And.. the search continues



Foda-se os amores quebrados, foda-se os loucos(as) confusos(as), foda-se todo o resto. Tenho mais é que me preocupar com o meu futuro. O que você faz determina o que você é. O que você é não determina o que você faz.

E foda-se todo o resto.

16/02/2009

O monólogo não significa nada para mim

FIM

Não consigo iniciar essa história pelo início. Eu queria que ela terminasse pelo início e começasse pelo fim, eu sempre quis isso.

Quando se tem apenas papel e caneta... toda a realidade pode se tornar fictícia, então [...] para não me perder, para não nos perder, para não me doer, vou começar pelo fim.

Eu não vivi essa história. Você não viveu essa história. Nós não vivemos essa história. Essa história não existe. Esse monólogo não significa nada para mim.

- Você sabe que poderia ter sido diferente.
- Não, nada poderia ter sido diferente.
- Se você falasse alguma coisa.
- Eu estou esperando você falar.
- Fala, por favor.
- Não há o que falar.
- Não existe isso.
- Claro que existe, tudo isso existe.
- Não existe.
- Uma distorção da realidade é agora uma necessidade para sermos livres.
- Não existe realidade, não existe liberdade, nada existe.. tudo existe.
- Por favor, acredita.
- Como?
- É simples: apenas feche os olhos e não deseje estar sozinho.
- Últimas palavras?
(Silêncio)

Como não desejaria estar sozinho? Tão desapontado, tão quebrado, tão sujo e tão desacreditado.

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- Você acredita em mim?
- Não sei.
- O que eu faço para você acreditar?
- Não faz nada, não vale a pena.
- Como você sabe?
- Eu leio as estrelas.
- Eu preciso te esquecer?
- Não é fácil.
- Então não me esquece.
- Não te esqueço.

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Eu digo... "sempre te quero perto", e você diz... "as coisas mudam, querida".

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- Chove no meu coração.
- Todos os dias?
- Quase todos os dias.
- E nos outros dias?
- Reflete luz.
- Quando reflete?
- Quando você está comigo.

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- Você tem um caminho para me encontrar.
- Tenho?
- Tem.
- Qual?

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Talvez quisesse dizer: "Você é mesmo uma garota feia, mas eu gosto do jeito que você joga... - E eu morri, mas o agradeci. Você consegue acreditar nisso? - Fatigado, fatigado, segurando seu retrato... se vestindo elegantemente todos os dias".

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- Fica essa noite?
- Fico.
- Sempre?
- Sempre.

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- Eu gosto de você.

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- Eu gosto de ouvir você de manhã quando acordo.
- Eu gosto de acordar você.
- Não é fácil não pensar em você, não é fácil. É estranho.
- Não te contar meus planos, não te encontrar.

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- Não tenha medo.
- Não tenho medo.
- Não tenha medo porque até o vento grita seu nome.
- Não tenha medo, estamos apenas acordando.
- Não tenho medo.

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- O que vem a seguir?
- Chuva.
- E sol.
- E chuva.
- Eu gostei de te conhecer.
- Eu também.

04/01/2009

Quanto vale viver assim?


Nos últimos tempos tenho assistido filmes que me incomodaram bastante. Muitas pessoas se perguntam: mas [...] por que você assiste filmes que angustiam e incomodam? Eu diria: porque não me incomoda me angustiar ou incomodar. É muito fácil fechar os olhos, fingir que está tudo bem e que, aos poucos, tudo vai estar no seu devido lugar.

Pois eu sou exatamente o tipo de pessoa que odeia as coisas nos seus devidos lugares. Acho que por esse motivo adoro esses filmes e esses livros que tanto me deixam de cabeça pro ar, que tanto me ensinam não saber o que vai acontecer no instante seguinte. Eu não tenho certezas, não tenho verdades.

Talvez tudo seja difícil demais para mim por causa desse comportamento tolo, impulsivo, extensivo, irracional, sensível, intenso. Alguns podem chamar esse comportamento de infantil, [...] já eu procuro não qualificar ele por palavras, mas entender por ações.

Começo a entender agora um pouco do que eu sempre busquei, apesar de não ser tão inteligível assim. A grande questão que se instala em mim é não entender, não aceitar, não me acomodar, com as escolhas que já são previamente cedidas a mim. Eu não. Existe uma diferença clara entre escolher o que já me é dado, e partir de outro lugar para escolher o que eu quero, mas para maioria das pessoas é difícil entender isso.

Eu quero mais. Eu sempre quis mais, eu nunca estou satisfeita com o pouco. Eu tenho Fome, não simples "fome" com f minúsculo, eu tenho Fome com F maiúsculo, (também sou claramente "exagerada"). Eu não quero pouco amor, eu não quero pouca paixão, eu não quero pouca atenção, eu não quero pouco carinho. Eu não quero pela metade, eu quero completo. É claro, porém, que a completude não existe. É apenas mais um recurso de linguagem inventado com a tentativa de traduzir, decodificar, sentimentos em palavras, mas não, não existe.

Eis que chego ao âmago da questão: quanto vale viver assim? Dois filmes me trouxeram até essa pergunta: into the wild, marley & me. Primeiramente, recuso-me a traduzir os filmes (nota de rodapé: é triste saber o quanto as traduções brasileiras são ridículas).

Apesar de serem filmes diferentes e se destinarem também a públicos diferentes, são filmes que me levaram a pensar o quanto vale a pena "nascer-crescer-estudar-casar-engravidar". O roteiro do filme está previamente produzido, só basta que você seja pelo menos um pouco bom para seguir todas as regras.

Into the wild fala um pouco sobre esse roteiro de vida: o quanto você pode passar a se acomodar, e o quanto você pode passar a quebrar completamente todas as regras. Nesse filme, o protagonista propôs a si uma maneira de viver que não precisasse de duas coisas provavelmente vitais à nossa civilização: dinheiro e relacionamentos. Ele experimentou uma sensação de "liberdade máxima, absoluta".

Eu me pergunto muito se conseguiria quebrar tanto as regras assim, mas provavelmente não. No fundo, eu não peço nada além de paz. Escrevendo essas palavras me lembro novamente do Caio F, em um dos seus trechos: "... tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara."

O outro filme (marley & me) trouxe um contraponto interessante. Mostra o quanto o dever materno pode acomodar nossos corações, nossos sonhos, nossos objetivos. Mostra o quanto nós procuramos um ideal dentro de nós, o quanto procuramos uma desculpa para ter que fugir de tudo, para aceitar o que já está previamente dado a mim.

De tudo isso que falei agora só tirei uma conclusão:
eu não sei bem o que é liberdade, mas tenho certeza que ela não tem nada a ver com o roteiro previamente produzido. De tudo isso que escrevi só acho que deixarei de alguma forma alguma marca nessa terra, nesse mundo. De tudo isso, só me resta uma certeza temporária: eu não vou desistir, algum dia eu me encontro, eu te encontro. Algum dia vai mudar, algum dia vai mudar.