A parte mais difícil de iniciar um texto é justamente essa: iniciar. Não se inicia um texto por acaso, não se começa a escrever achando que ninguém vai se importar. Talvez ninguém se importe mesmo, essa também é uma das partes mais difíceis. Talvez ninguém leia, ou talvez ninguém comente, mas pelo menos você tem a breve impressão de que existe alguém ali.
A parte mais difícil de viver é ter que ser reconhecido por alguém ou por algum grupo. Reconhecimento é algo vital, algo central, na vida de alguém. Não importa que tipo de reconhecimento: se de alguém a alguém, se de alguém em si mesmo, se de alguém em outros, mas deve haver reconhecimento.
Vocês não sabem como é difícil viver. Aliás, vocês sabem, porque vocês vivem. Mas, vocês não sabem o que é ter que dormir toda noite sozinha, ter que enfrentar o dia-a-dia sozinha, ter que estar só-em-si-só o tempo inteiro, porque ninguém vai estar lá por você, n-i-n-g-u-é-m. Isso não se chama solidão, eu acho. Isso é alguma coisa que eu não sei explicar, e que alguém só saberia entender se convivesse comigo nas mesmas situações, e vivesse praticamente as mesmas coisas.
Vocês não têm idéia. Vocês não sabem o que é viver em uma cidade completamente apática, uma cidade completamente repressora e reprimida. Ninguém saberia, eu acho. Ninguém sabe o que é viver em uma montanha russa que a qualquer momento vai soltar os pinos e tudo vai desabar.
Vocês não sabem que eu choro no banheiro, e só no banheiro, e nas outras vezes, eu choro digitando. Parece ridículo falar, mas eu só choro quando tenho tempo, isso: quando tenho tempo. Isso é ridículo.
Eu não sou ninguém e eu não tenho ninguém. E eu fico me perguntando qual é o motivo disso tudo e por que eu estou aqui agora. Qual o motivo? Existe algum sentido, senão... Eu fico me perguntando se a vida é essa espécie de dor intercalada com espaços de euforia e de paixão e de prazer e de alegria. Eu acho que eu começo a entender agora porque muitas pessoas buscam coisas alheias a si mesmas: acho que é porque é difícil encontrar algo verdadeiro nessa vida. É difícil encontrar algo pelo qual você acredite e queira lutar por isso. É difícil não pensar no futuro sem pensar no dinheiro. É difícil. É difícil. [...]
[...] Mas eu tento não me importar. Eu queria ser alguém, eu vou tentar ser alguém. Eu vou deixar minha marca no mundo de alguma forma, mesmo que sozinha – sem nada, e sem ninguém, mesmo que para isso eu tenha que sacrificar muito do que ainda restou em mim, mesmo que eu tenha que escrever palavras dolorosas e incomodas, mesmo que eu tenha que te fazer chorar. Eu só preciso de uma chance.


