Chove em mim e eu já não sei quem sou. Todas as minhas breves suposições foram embora, nada seria como antes.
Chove em mim e o que eu fui já não lembro mais. Todas as portas e janelas abertas foram fechadas pela ventania, e o que me restou foram apenas retratos. Retratos rasgados, queimados. Retratos esquecidos.
Chove em mim e eu quero ser alguém que não eu. Toda a minha sensibilidade aflorou, e eu já não consigo mais ver cor. Onde está o azul, amarelo, verde?
Chove em mim. Lava-me como se fosse a primeira vez nesse sábado escuro. Leva-me para qualquer lugar onde se possa supor, onde se possa lembrar, onde se possa enxergar.
Chove em mim em uma madrugada solitária. Chove nesse papel, me lava, me leva, me descobre, porque eu nada mais sou além desse papel molhado, desse papel esquecido.
Chove em mim e me ama, me aperta, me olha como se fosse a primeira e a única vez, mas chove em mim. Me leva para esse lugar que um dia acreditamos, me leva a acreditar, me leva a pensar, me leva a imaginar um para além de todas as coisas.
Me leva e me traz para esse reino encantado, onde você veste cores berrantes e eu sonho com o pôr-do-sol perfeito, com a magia de talvez poder amar.
Chove em mim pela primeira e pela última vez. Faz-me acreditar que eu ainda posso ser feliz, que eu vou lavar e levar de mim (em) mim toda a dor, toda a impossibilidade e a improbabilidade, toda a frustração, todos os poços, todas as lágrimas [...] Chove em mim agora [..] eu digo que não sei mais voltar, e você me diz que é melhor deixar o verão para mais tarde.


