28/12/2008

Chove em mim

Chove em mim e eu já não sei quem sou. Todas as minhas breves suposições foram embora, nada seria como antes.

Chove em mim e o que eu fui já não lembro mais. Todas as portas e janelas abertas foram fechadas pela ventania, e o que me restou foram apenas retratos. Retratos rasgados, queimados. Retratos esquecidos.

Chove em mim e eu quero ser alguém que não eu. Toda a minha sensibilidade aflorou, e eu já não consigo mais ver cor. Onde está o azul, amarelo, verde?

Chove em mim. Lava-me como se fosse a primeira vez nesse sábado escuro. Leva-me para qualquer lugar onde se possa supor, onde se possa lembrar, onde se possa enxergar.

Chove em mim em uma madrugada solitária. Chove nesse papel, me lava, me leva, me descobre, porque eu nada mais sou além desse papel molhado, desse papel esquecido.

Chove em mim e me ama, me aperta, me olha como se fosse a primeira e a única vez, mas chove em mim. Me leva para esse lugar que um dia acreditamos, me leva a acreditar, me leva a pensar, me leva a imaginar um para além de todas as coisas.

Me leva e me traz para esse reino encantado, onde você veste cores berrantes e eu sonho com o pôr-do-sol perfeito, com a magia de talvez poder amar.

Chove em mim pela primeira e pela última vez. Faz-me acreditar que eu ainda posso ser feliz, que eu vou lavar e levar de mim (em) mim toda a dor, toda a impossibilidade e a improbabilidade, toda a frustração, todos os poços, todas as lágrimas [...] Chove em mim agora [..] eu digo que não sei mais voltar, e você me diz que é melhor deixar o verão para mais tarde.

22/12/2008

15/12/2008

Given a chance, i’m gonna be somebody

Ligue o som no volume máximo e esqueça tudo isso.

A parte mais difícil de iniciar um texto é justamente essa: iniciar. Não se inicia um texto por acaso, não se começa a escrever achando que ninguém vai se importar. Talvez ninguém se importe mesmo, essa também é uma das partes mais difíceis. Talvez ninguém leia, ou talvez ninguém comente, mas pelo menos você tem a breve impressão de que existe alguém ali.

A parte mais difícil de viver é ter que ser reconhecido por alguém ou por algum grupo. Reconhecimento é algo vital, algo central, na vida de alguém. Não importa que tipo de reconhecimento: se de alguém a alguém, se de alguém em si mesmo, se de alguém em outros, mas deve haver reconhecimento.

Vocês não sabem como é difícil viver. Aliás, vocês sabem, porque vocês vivem. Mas, vocês não sabem o que é ter que dormir toda noite sozinha, ter que enfrentar o dia-a-dia sozinha, ter que estar só-em-si-só o tempo inteiro, porque ninguém vai estar lá por você, n-i-n-g-u-é-m. Isso não se chama solidão, eu acho. Isso é alguma coisa que eu não sei explicar, e que alguém só saberia entender se convivesse comigo nas mesmas situações, e vivesse praticamente as mesmas coisas.

Vocês não têm idéia. Vocês não sabem o que é viver em uma cidade completamente apática, uma cidade completamente repressora e reprimida. Ninguém saberia, eu acho. Ninguém sabe o que é viver em uma montanha russa que a qualquer momento vai soltar os pinos e tudo vai desabar.

Vocês não sabem que eu choro no banheiro, e só no banheiro, e nas outras vezes, eu choro digitando. Parece ridículo falar, mas eu só choro quando tenho tempo, isso: quando tenho tempo. Isso é ridículo.

Eu não sou ninguém e eu não tenho ninguém. E eu fico me perguntando qual é o motivo disso tudo e por que eu estou aqui agora. Qual o motivo? Existe algum sentido, senão... Eu fico me perguntando se a vida é essa espécie de dor intercalada com espaços de euforia e de paixão e de prazer e de alegria. Eu acho que eu começo a entender agora porque muitas pessoas buscam coisas alheias a si mesmas: acho que é porque é difícil encontrar algo verdadeiro nessa vida. É difícil encontrar algo pelo qual você acredite e queira lutar por isso. É difícil não pensar no futuro sem pensar no dinheiro. É difícil. É difícil. [...]

[...] Mas eu tento não me importar. Eu queria ser alguém, eu vou tentar ser alguém. Eu vou deixar minha marca no mundo de alguma forma, mesmo que sozinha – sem nada, e sem ninguém, mesmo que para isso eu tenha que sacrificar muito do que ainda restou em mim, mesmo que eu tenha que escrever palavras dolorosas e incomodas, mesmo que eu tenha que te fazer chorar. Eu só preciso de uma chance.

05/12/2008

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mas eu tenho muito medo das coisas indefinidas.

do talvez.

eu gosto de estabilidade. porque eu, por mim mesma, já sou inconstante demais.

oh well, okay

21/11/2008

oh and she's always dressed in white

De repente me deu uma vontade enorme de falar sobre qualquer coisa. De repente me deu raiva saber que só reclamo, reclamo. De repente eu quis ser diferente. De repente eu não quis, eu quis continuar e achar que ser assim valia a pena, que no final da estrada havia alguma recompensa.

Mas não há recompensa alguma, não há alegria alguma se não essa que você inventa todos os dias. É tudo invenção, é tudo coisa da sua cabeça, é tudo imaginação. Felizes são esses que conseguem inventar tudo colorido ao seu redor. Que conseguem semear todas as coisas bonitas, que conseguem não ser mais um, mas ser um.

Felizes daqueles que dizem ser felizes, ou julgam ser felizes, inventam a felicidade. Tristes aqueles que não conseguem mais inventar prazer; e não inventando, o mundo colorido se torna dolorido.

Felizes daqueles que encontraram a sua diversão. Os outros; pobre mortais; tristes; deprimidos; coitados, talvez nunca tenham encontrado a sua diversão, ou já perderam há tempos. Felizes aqueles que tem um rosto para beijar na sexta-feira à noite; um cabelo para fazer carinho. Felizes aqueles que não se preocupam com nada disso. Felizes [...] Tristes, felizes, tristes.

De fato, eu preciso encontrar o meu prazer em algum lugar. Eu olho ao meu redor e não consigo achar graça em nada, é como se todo o colorido previamente se tornasse gélido. Oh, ela sempre veste branco, [...]

O problema é em achar problema estar sozinho. O problema é não aceitar, não entender e não refletir o estar sozinho. O problema é que dói, e uma vez doído [...] já não se tem mais saída. Caminho sem volta.

O problema talvez seja achar problemas.
O problema talvez seja não se comprometer consigo mesmo.
Problema, problema [....] achar que tudo está se despeçando ao seu redor e que nada mais tem solução.
O problema pode ser o olhar [...] porque se a realidade te alimenta com merda, a mente pode te alimentar com flores, colega.

09/11/2008

#1

I'm caught in the symmetry of your mind,  but I'm not happier than you...