31/10/2007

(Lorena é de origem burguesa, bondosa e delicada, fruto da "bela educação". Vive num mundo de fantasias, idealizando um romance com um homem mais velho e casado. Isolada em seu quarto no pensionato remói os problemas de sua vida sentimental.
Lião é filha de pai alemão e mãe baiana. Estudante de Ciências Sociais, é ativista da esquerda clandestina da época. Vive mergulhada na contestação dos valores e ideais da sociedade, rodeada de recortes, panfletos e estatísticas.
Ana Clara estudava Psicologia, mas interrompe os estudos. Sua vida pessoal é complicadíssima, sua infância foi pobre, sem pai, e mãe prostituída. Possui um pretendente "salvacionista", mas ama a Max, com quem embarca no mundo das drogas.)



Sobre coisas e pessoas. Sobre pessoas e coisas. Se fosse para me colocar em alguma das três vidas, qual seria a mais adequada? Diria que a minha seria a da Ana Clara. Tirando algumas coisas é claro. Digamos que vida pessoal complicadissima é um traço meu. Psicologia. pretendente "salvacionista" que algum dia vai aparecer, talvez.. mas ama outra pessoa, com quem embarca no mundo das solidões, das impossibilidades. Vive num mundo de fantasias. Isolada em algum quarto remói os problemas de toda a vida. Que estranho, sabe. Sobre pessoas e coisas.

"Entrei na cozinha. Que cara é essa? estranhou a Custódia. Encolhi os ombros e ajudei a embrulhar o peru no papel-manteiga. Vamos depressa que a gente está atrasada, ela resmungou me pegando pelo braço. Parou um pouco para me examinar melhor.— Mas o que aconteceu, você está chorando? Enxuguei a cara na barra da saia.— Me deu uma pontada no dente.— Foi naquele que o dentista chumbou? Quer a Cera do Doutor Lustosa?— Deu só uma pontada, já parou de doer.— Pegue o meu lenço, ela disse abrindo a sacola. Ofereceu-me o lenço de algodão branco, bem dobrado. Na calçada deserta ela ainda parou um pouco para prender a fivela no cabelo. O peru era meio velho mas acho que ficou bom.Enxuguei os olhos com raiva e cruzei os braços contra o peito, outra vez o tremor? Fomos andando lado a lado e em silêncio."

Sobre o silêncio. Sobre a importância para alguns e a futilidade para outros. Para isso, vou escrever uma besteira qualquer, nem que seja para passar o tempo:

"Recordo-me dos nossos dias, mas só consigo lembrar mais intensamente ouvindo a nossa música. Parece dizer muito mais, às vezes. A voz, o tom, o violão ou a guitarra gritam esperando que eu possa escrever algo mais sobre nós. Mas não sei, eu tento lembrar, ao passo que consigo esquecer. Tudo aquilo fica vivo na memória, mas em outra parte da memória. Os antigos a chamam de 'memória do coração'. Eu, honestamente, não sei defini-la. A única coisa que me faz escrever é sobre o nosso silêncio. Assim, tão bobo. Penso e repenso mil vezes o meu único desejo: sentar ao seu lado e esperar o tempo passar. Eu vou esperar porque assim me sinto mais segura. E com ela, ali, só olhando para mim, seria mais que o bastante para confessar mil juras de amor. Então ela diz: 'você vai ficar quieta assim? vai, não fica quieta!'. O silêncio perdura. Posso definir: um filme passa refletindo nos meus olhos e eu fico lembrando de tudo que nós passamos. Nenhuma palavra dita. Dói, porque é só silêncio. Mas alivia. Liberta. Vive. 'Como viver sem você?', fica martelando na minha cabeça antes de introduzir qualquer discussão. 'O que eu posso fazer?'. Se eu pudesse ao menos ter um instante ao seu lado, no mais absoluto silêncio, eu creio que você me entenderia. Sem mais palavras, só silêncio. De vez em quando um pássaro quebra a nossa concentração. Ele voa, voa livre. 'Preciso falar que a amo', penso. Despenso e volta o silêncio. Ela poderia olhar para mim com aquele jeito bobo de ser e me dizer que tudo estava bem. Mas não, era o fim. 'Mesmo que tudo se acabe permanecerá a amizade'. Creio que não, pensava. 'Prefiro morrer a ter que viver sem você'. Daí surgiram as palavras:
'Cansei de tentar e olhar para um (novo) rosto lembrando de você'

silêncio. fim"

They stand to fight for nothing,

to show how stupid we’ve become,

[...] so close your eyes and stay away,

don’t believe your headlines,

they poisoned your minds everyday,

as some will say,

- your revolution is a joke.”

Nordeste açucareiro, nordeste sertanejo, nordeste de economia globalizada. Será que essas três palavras resumem o que o nordeste é? Ah, nordeste da monocultura: entregue aos grandes latifúndios, grandes secas, Deus quer que seja assim, e assim será. Nordeste sertanejo, marginalizado, fragilizado, submisso. Melhor seria o nordeste da economia globalizada? Com suas ilhas de inclusão, pólos de turismo, tudo tão bonito, temos que salvar o nordeste de toda essa fatalidade. Nor-destin-ação: uma síndrome fatalista, dominação social que impõe fatalidade na região, um modelamento classista da existência, uma ideologia de submissão. Estamos destinados a não sermos? Mas J. Cortázar disse que às vezes basta sermos. Nosso destino em ação? Somos obrigados a fugir para o Sudeste, tanto os sertanejos nordestinados, como o empresário, professor, estudante, profissional liberal? Somos mesmo nordestinados, tratados com indiferença e submissão? Cadê aquela palavra tão bem explorada pelos filósofos chamada liberdade? Eu sei, liberdade é um conceito muito subjetivista, cada um tem uma visão diferente. Talvez falte mesmo uma caminhada nordestina de libertação, uma superação do presentismo, um resgate da nossa memória histórica, talvez uma organização popular. Hoje em dia achamos tudo muito natural. Eles – os outros, poderiam achar que estou pregando um discurso muito fraternalista, mas o caminho da libertação só é possível através da fraternidade (saudações ao P. Freire). O conformismo só faz crescer o egoísmo. É possível reinvidicar o direito e a liberdade? Sabe, tem muita coisa errada, eu sei. Se não estivermos atentos passamos a fazer parte desse Brasil oficial, esse país de miséria e marginalização... E esse Brasil profundo, que não entramos em contato, talvez na esquina, na porta da nossa casa, e não, não entramos em contato. O grande problema do nosso país não é a fome, a pobreza, e sim a naturalidade de como enfrentamos isso no dia-a-dia. Só se entra em contato com esse Brasil profundo estando em convivência com ele, aprendendo. É preciso humildade, simplicidade, a fim de atingir uma práxis libertadora proposta por Paulo Freire. Qual a sua postura de classe? Nordestino, ou nordestinado?

Composição

Não sei como começar esse texto, porque me dói profundamente ter que escrever uma linha sobre isso. Eu queria muito ter todas as palavras escritas mentalmente, para não ter a possibilidade de me automutilar novamente. Mas não, continuo assim, desde cedo, desde sempre, desde agora, sempre fui assim – blue and lonely. E ainda procurando, tentando, achando, me acabando – tudo por uma tentativa, uma mera tentativa de alguma coisa na vida, algo como: hey, nem tudo ainda está perdido. É verdade, nem tudo ainda. Até nos meus sonhos eu sou feita de idiota, não acredito em uma coisa dessas, mas é. É que me dói, me dói profundamente mesmo ter que aceitar essas coisas da vida, essas pessoas, essas ruas, essas passagens. Às vezes é como se eu parasse no tempo e não conseguisse pensar em mais nada, se e somente se – em nada. Ah, se todas as pessoas do mundo soubessem o quanto eu sou carinhosa. Mas não, continuo aqui, estática, blue and lonely. Tudo aconteceu naquele dia. Como sempre eu achei um modo de extravazar, como sempre procurando – achando amor onde não existe? I have so much love to give, I just don't know where to put it. Em dias assim, que nem cinzentos estão, me sento nessa cadeira e páro no tempo – thinking, thinking, oh god, o que eu faço, o que eu faço para pelo menos sair desse poço profundo, quanto mais subo, quanto mais tento sair, mais me afundo, mais me prendo. Tudo bem, voltando ao sentido do texto. Distraidamente e sem querer de modo algum chegar onde eu cheguei agora, eu te achei, sabe, ou você me achou? Nós nos achamos, deve ter sido doce no momento. Eu sei, eu sei, eu sei, estou projetando todo aquele amor em você, que nem ao menos me conhece, que nem ao menos escutou o meu silêncio de palavra, a palavra de silêncio. Na verdade não adianta falar sobre isso, só estamos tratando de mais um amor não correspondido, de mais uma ilusão boba – um poço profundo na vida de uma menina totalmente desinteressante que procura tanto, tanto, tanto, tanto em algum lugar - amor. Naquele dia vi como eu sou uma pessoa sozinha, senti a coisa inteiramente viva – a solidão que as pessoas carregam todos os dias. É, estou tentando sair desses poços, estes que estão me consumindo todo dia mais. Ah.. mundo, eu sei, parece que eu não vou escapar, que enfim esse poço vai me sugar até o fim. Estática, penso: eu acho que devo ter feito muita coisa ruim para ter que merecer tantos poços assim. Ah, deixa que a loucura escorra em tuas veias, eu sei Caio, eu sei, você me entende, você deve ter vivido os poços que vivi, ou pelo menos ter conhecimento deles. Respiro fundo: não sei mais respirar. Parece estar parando – tudo em minha volta estático. Eu gostei de você, e esperei tanto você. Tenho que confessar – passei o dia inteiro te procurando, eu queria ter conversado de verdade com você, queria que tivesse escutado os meus silêncios. Agora não acredito em muita coisa, sinto que meu coração vai virar gelo. E eu, que estava tão distraída: aprendi que as coisas acontecem quando estamos bastante distraídos. There's a light of each end of this tunnel you shout, cause you're just as far in as you'll ever be out… Eu espero que essa dor passe e que algum dia eu me acostume com a idéia de ser tão sozinha. Você não vai estar aqui – ninguém vai estar aqui. E pensei: puxa, será que foi o destino que me fez chegar até você? So blue and lonely. Será que as minhas tentativas frustrantes de amor agora vão ser realmente substituídas pelo amor, assim, sem poços, sem dor? Não sei, meu bem. Não sei se consigo acreditar nessa ilusão, acho que não tenho mais nem coragem de falar novamente com você. Apesar de, como sempre, apesar de, apesar de, apesar de, foi tão, tão, tão bom. Foi bom te conhecer, mesmo sabendo que eu continuarei nos poços e você, e você, não sei, não sei. A minha única certeza é que continuaremos distantes, eu sem seu sorriso, você sem meus silêncios.

Tão completa de vazios II

Tão completa de vazios II

Tão distante. Estou em todos os lugares e ao mesmo tempo em nenhum. Escuto mas não ouço, estou tão distante. Estou dispersa, me perdi e não sei mais me achar. Só encontro esse papel, essa atmosfera, essa claridade, onde estou? Preciso me encontrar mas não sei onde estou, vem comigo procurar algum lugar mais calmo, longe dessa confusão.. É, pareço tão distante, so blue, maybe gray and white, black, estou longe, e distante, completa de vazios. Não quero estar aqui, quero ir embora agora, você vem comigo? So blue. Oh god! Procuro tanto, tanto, ah, se todas as pessoas do mundo soubessem o quanto eu sou carinhosa. É. Mas estou aqui – perdida, distante, vazia, dispersa, so blue, gray, black and white. Como se existisse só eu nesse lugar, eu quero ir embora agora, me deixa ir embora. Quero sair por aí gritando qualquer coisa, quero viver, mas o que é viver? Sobrevivo em meio a essas árvores, esse verde, essa vida, você não percebe? Eu preciso ir embora, me deixa ir? Preciso ir... essas cores não fazem mais sentido, essas pessoas não fazem mais sentido, nada mais faz sentido. Estou cansada, talvez seja isso. A insônia me mata, a esperança também. Ontem achei que a minha vida tinha salvação, mas errei, me acabei. Essas paredes não fazem mais sentido, parece que nada mais faz sentido, ah, uh! Que depressivo, nada mais faz sentido, ligarei para cvv e alugarei um ouvido de um idiota (ah, sobreviventes) falando ah-ah-ah-nada-faz-sentido-entende? Você me entende?

_______________________ pausa de mil compassos – continuação da aula

--- O que é arte para você? A professora me pergunta.

--- Ah, não sei, é cinema, é escrita, é literatura, é fotografia, é tudo que eu gosto, eu sobrevivo de arte.

Ingredientes do sucesso

Ingredientes do sucesso

1) Objetivo;

2) Estratégia;

3) Trabalho consistente;

4) Competência;

5) Bons amigos;

6) Visão de campeonato;

7) Suportar pressão;

8) Estudar muito;

9) Viver um dia de cada vez;

10) Pagar o preço.

Ao som de stereophonics,

Queria saber se tudo está resumido em “ingredientes do sucesso”. Pensamento positivo, pensamento negativo, atitude positiva, famosa SJC: Síndrome de Jesus Cristo. More you fly, more you risk, ... i’m just looking i’m not buying, keeping on smiling... Atenção estudantes de Psicologia! Agora as pessoas cobram que você seja a pessoa ideal, o próprio Jesus Cristo reencarnado: entenda as pessoas, seja compreensivo, praticamente ser o Santo em pessoa, sim, sim em qualquer deslize te falam: “Cadê a tua postura de psicóloga? Tu é uma psicóloga, tu não pode ser assim”. Ah, que profissãozinha mais complexa de se exercer, principalmente quando se está apenas estudando. Todas as vezes que as pessoas me indagam isso eu fico com uma eterna raiva dentro de mim. Primeiro, porque não acredito nessa história de ingredientes de sucesso, livros de auto-ajuda e o poder que colocam em cima de um psicólogo (eterno salvador de todas as coisas). É, como disse um dos autores críticos da Psicologia: ciência do aprisionamento, e não da libertação. Na verdade, não sei por que ainda estou estudando isso, mas tem inúmeras coisas que eu simplesmente condeno nas Ciências Psicológicas. Enfim, isso não vem ao caso, voltarei ao título inicial: ingredientes do sucesso. Acho engraçado porque minha mãe sempre vem com livros de auto-ajuda dizendo: isso vai te fazer melhorar, tua auto-estima é muito baixa. Acho bonito e até legal as pessoas acreditarem nessas porcarias de sucesso, auto-ajuda, objetivo, atitude, siga os dez passos e seja a pessoa ideal. Para mim essa é uma história parecida com um conto de fada: bonito e feliz, mas simplesmente irreal. Se fossem me perguntar que tipo de pessoa eu me enquadraria (nossa que palavra feia), eu facilmente diria: naquelas que são absurdamente sonhadoras. Sim, sonho demais, sonho tanto que às vezes saiu do universo real. Minhas últimas experiências sonhadoras não foram tão boas, acabei saindo demais da realidade e entrando demais no sonho. Eu me lembro como se fosse hoje a minha primeira terapia. É, para ser psicólogo você tem que fazer terapia, conhecer todo o mundo psicoterapeutico, you know? Ela tinha me dito que as pessoas devem se equilibrar: nem tanto realidade, nem tanto sonho, meio-termo. Oh god! Que coisa complicada é atingir esse meio termo, hein? Ou seja, se tornar uma pessoa equilibrada. Palavra bonita, né? Equilíbrio. Depois disso, estou realmente pensando em fazer alguma atividade terapêutica (prática alternativa) que vise essa equilibração: corpo e mente. Quem sabe biodança, quem sabe yoga, quem sabe acupuntura, qualquer coisa assim que me faça sentir mente sã. Quem sabe isso não dá certo? Confesso que já tentei muitas coisas na vida: desenhar, tocar violão, cantar, escrever, fotografar. Minha grande frustração foi não ter tido sucesso em nenhuma dessas coisas. Imagina só, cara, es una mierda. Meu primeiro desenho foi um desastre, lembro como hoje. Tentei desenhar o Mickey mouse aos 12 anos de idade, claro que saiu uma aberração mesmo. Minhas tentativas de violão foram durante longos anos. No começo não sabia tocar coisa alguma, depois fui treinando, treinando. Hoje confesso que toco alguma coisa, mas aquela coisa a que chamam “dom” eu não tenho (olha as pessoas intitulando coisas novamente). Cantar sempre foi a pior das coisas (empatado com desenhar). Minha voz simplesmente não me ajuda. Escrever é uma das poucas coisas que só me vem em determinadas épocas. Fotografar é o mesmo que escrever, duas fotos boas dentre cem super ruins. Um dia desses estava com uma amiga conversando sobre isso, e frustrada, eu disse: porra, como é que pode Deus não ter me dado nenhum dom? Aí ela me respondeu: você tem o dom da palavra. Realmente, fiquei imaginando depois... dom da palavra? Mas como assim? Ela: assim, ó, tem vezes que você sabe o que dizer na hora certa, aquela palavra é tudo que alguém gostaria de ouvir, que precisaria ouvir. Poxa, que bonito de imaginar que eu tenho isso. Ou seria o dom do silêncio, diria outra amiga. Palavra ou silêncio, silêncio da palavra, acorde e silêncio. Não sei, as pessoas acabam esquecendo rapidamente disso, porque palavras vão embora, silêncios passam, acordes ao vento são substituídos. Eu sei que tem algumas poucas pessoas (não conheço muitas), que não esquecem dessas pequenas coisas. Na verdade vivemos em um mundo extremamente substituidor: substituídos e substituidores. Eu queria ter nascido naquela época de efervescência revolucionária, tipo anos 60/70/80: ouvir rock’n’roll e fumar cigarros para conquistar garotos. Sim, aquilo que era época! Jeff Buckley, Cazuza.. ídolos incríveis, sentimentos incríveis. Andar de lambreta, usar biquíni de bolinha amarelinha, namorar na beira da praia, ir às ruas gritar: diretas já! É uma pena que tenha que viver nesse tempo de revolução preguiçosa, mas enfim... São só suaves lembranças de um outono passado, de uma garota que nem outono teve, que nem suave sentiu, que nem lembranças viveu....

29/10/2007

Ando tão completa de vazios

Tão completa de vazios. *

* Meu eterno agradecimento ao meu inspirador, Caio F. Abreu.

Ando tão completa de vazios. Ando tão completa de tantas coisas, tantos lugares, tantos vazios. Esse tempo inteiro não percebia, mas estava mesmo interiorizando uma salvação, procurando alguma pessoa que pudesse enfim me salvar de todo esse lodo. Sim, sim, desde o primeiro momento sabia que era você. Cheguei após uma longa jornada - bombardeamentos de informações (o que chamam de aulas). In time you need to learn to love, ... Minhas lágrimas se confundem com esse gosto amargo de fracasso, essa coisa que chamam "dor-angústia". As pessoas têm uma eterna mania de intitular as coisas até certas palavras fazerem sentido. O que isso custa para mim, hein? Noites de insônia, lágrimas e aquele velho gosto eterno de fracasso? Eu só não compreendia o que estava sentindo, não conseguia chorar, não conseguia sentir coisa alguma, até me sentar nessa cadeira. É, vocês ainda não ouviram falar do romance da atualidade? Ninguém tem coragem de falar duras palavras face a face. As pessoas têm medo dos olhos, das lágrimas vistas, têm medo de serem vistas, de serem percebidas. Finalmente nós não somos ninguém. Sabe, antes de mais nada, antes de tudo isso, eu me neguei, neguei tudo o que eu fui para poder te amar. Para poder ter a oportunidade de amar. O que resta? Uma música, duas palavras, qualquer coisa sem sentido, ou com sentido: ah, eu não sinto o que eu costumava sentir. Você me manda uma carta qualquer, me diz que isso não significa que um dia me amou, que simplesmente não há como reverter a ordem natural das coisas. Que porra de ordem natural das coisas! Eu não dou a mínima para a porcaria da ordem natural das coisas. Você não sabe, mas eu realmente me anulei para poder te amar, você entende isso, você consegue me entender, você consegue me ler, ler esse documento de romance atual? Você não sabe que me machucou com essa droga de eu sei que não há mais nada o que fazer, que o que tem que ser feito já foi feito, eu não quero te ver, e me fala algumas duras palavras querendo que eu aceite tudo numa boa, que o mundo está aí para ser vivido, vai lá, caminha, tudo continua, tudo está bem, o tempo cura tudo, assim tu me deixas ir, eu te deixo ir, nos deixamos ir. E tudo se resume a quem é o culpado, quem errou mais ou menos, quem amou mais quem amou menos. Eu não ligo pros mais e menos desse romance atual, o que isso custou para você? Uma noite de sono? Uma lágrima? Os amigos dizem: ele não merece suas lágrimas; as amigas dizem: vai dar tudo certo, o tempo vai se encarregar de curar essa dor. O que eles sabem sobre a minha dor e minhas lágrimas? Por que não silenciar? Por que o silêncio nessas horas não é aceito? Sabe, eu assisti um filme antes de conectar ao MSN (novo local de términos de relacionamentos – tecnológico demais, não?). Se chama Geração Prozac. Não, eu sei que você não sabe de nada, você não tem a mínima idéia. Às vezes eu acordo e passo o dia inteiro pensando em alguma forma de exteriorizar essa minha dor. Se você soubesse. E sim, estamos tão fucked up. Essa geração de vazio, de tristeza, de mascaramento, de fingimento. Somos praticamente obrigados a nos sentirmos felizes para que as pessoas gostem da gente. So fucked up. Para os que não conseguem, há uma lojinha muito bem conceituada chamada farmácia. É praticamente um supermercado, você faz sua listinha e compra os produtos. Você compra estabilidade, felicidade, calma, paciência. Hoje em dia você compra praticamente tudo, só basta ter dinheiro em cash. Você compra também uma mascara para você, sabe? Daqui alguns anos você vai até poder comprar um sonho lúcido, you know? Você quer escutar uma coisa realmente bonita? Eu não pularia. Sabe aquele outro filme, vanilla sky? Não, eu não pularia. Eu viveria em um sonho lúcido com você. Eu queria acordar ao seu lado, dormir ao seu lado, tomar café ao seu lado, viver ao seu lado. Queria construir o meu porto-seguro, a minha felicidade, e todas aquelas outras coisas que elevam a seretonina (vulgo hormônio da alegria, do amor?). Pode parecer bobagem, amor, mas eu viveria um sonho lúcido. Tamanha foi a minha anulação, a minha negação, fugiu do meu ego, sabe? E eu que achei que ninguém fosse me entender, mas o Caio me entendeu. Sim, o Fernando Abreu. Ele soube expressar tudo o que eu queria dizer algum dia, ou para mim, ou para você, ou para eles - os outros. E ele disse: é caro amigo, já dizia o sábio F. Pessoa: o amor não consola nunca os núncares. Algo assim, não me recordo. Então agora, enfio o meu dedo na garganta, chafurdo com ferro essa dor, eu sei, você pode escapar, e eu... eu quero viver essa dor da forma mais intensa possível.

You so fucking special, i wish i was special...