04/01/2009

Quanto vale viver assim?


Nos últimos tempos tenho assistido filmes que me incomodaram bastante. Muitas pessoas se perguntam: mas [...] por que você assiste filmes que angustiam e incomodam? Eu diria: porque não me incomoda me angustiar ou incomodar. É muito fácil fechar os olhos, fingir que está tudo bem e que, aos poucos, tudo vai estar no seu devido lugar.

Pois eu sou exatamente o tipo de pessoa que odeia as coisas nos seus devidos lugares. Acho que por esse motivo adoro esses filmes e esses livros que tanto me deixam de cabeça pro ar, que tanto me ensinam não saber o que vai acontecer no instante seguinte. Eu não tenho certezas, não tenho verdades.

Talvez tudo seja difícil demais para mim por causa desse comportamento tolo, impulsivo, extensivo, irracional, sensível, intenso. Alguns podem chamar esse comportamento de infantil, [...] já eu procuro não qualificar ele por palavras, mas entender por ações.

Começo a entender agora um pouco do que eu sempre busquei, apesar de não ser tão inteligível assim. A grande questão que se instala em mim é não entender, não aceitar, não me acomodar, com as escolhas que já são previamente cedidas a mim. Eu não. Existe uma diferença clara entre escolher o que já me é dado, e partir de outro lugar para escolher o que eu quero, mas para maioria das pessoas é difícil entender isso.

Eu quero mais. Eu sempre quis mais, eu nunca estou satisfeita com o pouco. Eu tenho Fome, não simples "fome" com f minúsculo, eu tenho Fome com F maiúsculo, (também sou claramente "exagerada"). Eu não quero pouco amor, eu não quero pouca paixão, eu não quero pouca atenção, eu não quero pouco carinho. Eu não quero pela metade, eu quero completo. É claro, porém, que a completude não existe. É apenas mais um recurso de linguagem inventado com a tentativa de traduzir, decodificar, sentimentos em palavras, mas não, não existe.

Eis que chego ao âmago da questão: quanto vale viver assim? Dois filmes me trouxeram até essa pergunta: into the wild, marley & me. Primeiramente, recuso-me a traduzir os filmes (nota de rodapé: é triste saber o quanto as traduções brasileiras são ridículas).

Apesar de serem filmes diferentes e se destinarem também a públicos diferentes, são filmes que me levaram a pensar o quanto vale a pena "nascer-crescer-estudar-casar-engravidar". O roteiro do filme está previamente produzido, só basta que você seja pelo menos um pouco bom para seguir todas as regras.

Into the wild fala um pouco sobre esse roteiro de vida: o quanto você pode passar a se acomodar, e o quanto você pode passar a quebrar completamente todas as regras. Nesse filme, o protagonista propôs a si uma maneira de viver que não precisasse de duas coisas provavelmente vitais à nossa civilização: dinheiro e relacionamentos. Ele experimentou uma sensação de "liberdade máxima, absoluta".

Eu me pergunto muito se conseguiria quebrar tanto as regras assim, mas provavelmente não. No fundo, eu não peço nada além de paz. Escrevendo essas palavras me lembro novamente do Caio F, em um dos seus trechos: "... tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara."

O outro filme (marley & me) trouxe um contraponto interessante. Mostra o quanto o dever materno pode acomodar nossos corações, nossos sonhos, nossos objetivos. Mostra o quanto nós procuramos um ideal dentro de nós, o quanto procuramos uma desculpa para ter que fugir de tudo, para aceitar o que já está previamente dado a mim.

De tudo isso que falei agora só tirei uma conclusão:
eu não sei bem o que é liberdade, mas tenho certeza que ela não tem nada a ver com o roteiro previamente produzido. De tudo isso que escrevi só acho que deixarei de alguma forma alguma marca nessa terra, nesse mundo. De tudo isso, só me resta uma certeza temporária: eu não vou desistir, algum dia eu me encontro, eu te encontro. Algum dia vai mudar, algum dia vai mudar.

28/12/2008

Chove em mim

Chove em mim e eu já não sei quem sou. Todas as minhas breves suposições foram embora, nada seria como antes.

Chove em mim e o que eu fui já não lembro mais. Todas as portas e janelas abertas foram fechadas pela ventania, e o que me restou foram apenas retratos. Retratos rasgados, queimados. Retratos esquecidos.

Chove em mim e eu quero ser alguém que não eu. Toda a minha sensibilidade aflorou, e eu já não consigo mais ver cor. Onde está o azul, amarelo, verde?

Chove em mim. Lava-me como se fosse a primeira vez nesse sábado escuro. Leva-me para qualquer lugar onde se possa supor, onde se possa lembrar, onde se possa enxergar.

Chove em mim em uma madrugada solitária. Chove nesse papel, me lava, me leva, me descobre, porque eu nada mais sou além desse papel molhado, desse papel esquecido.

Chove em mim e me ama, me aperta, me olha como se fosse a primeira e a única vez, mas chove em mim. Me leva para esse lugar que um dia acreditamos, me leva a acreditar, me leva a pensar, me leva a imaginar um para além de todas as coisas.

Me leva e me traz para esse reino encantado, onde você veste cores berrantes e eu sonho com o pôr-do-sol perfeito, com a magia de talvez poder amar.

Chove em mim pela primeira e pela última vez. Faz-me acreditar que eu ainda posso ser feliz, que eu vou lavar e levar de mim (em) mim toda a dor, toda a impossibilidade e a improbabilidade, toda a frustração, todos os poços, todas as lágrimas [...] Chove em mim agora [..] eu digo que não sei mais voltar, e você me diz que é melhor deixar o verão para mais tarde.

22/12/2008

15/12/2008

Given a chance, i’m gonna be somebody

Ligue o som no volume máximo e esqueça tudo isso.

A parte mais difícil de iniciar um texto é justamente essa: iniciar. Não se inicia um texto por acaso, não se começa a escrever achando que ninguém vai se importar. Talvez ninguém se importe mesmo, essa também é uma das partes mais difíceis. Talvez ninguém leia, ou talvez ninguém comente, mas pelo menos você tem a breve impressão de que existe alguém ali.

A parte mais difícil de viver é ter que ser reconhecido por alguém ou por algum grupo. Reconhecimento é algo vital, algo central, na vida de alguém. Não importa que tipo de reconhecimento: se de alguém a alguém, se de alguém em si mesmo, se de alguém em outros, mas deve haver reconhecimento.

Vocês não sabem como é difícil viver. Aliás, vocês sabem, porque vocês vivem. Mas, vocês não sabem o que é ter que dormir toda noite sozinha, ter que enfrentar o dia-a-dia sozinha, ter que estar só-em-si-só o tempo inteiro, porque ninguém vai estar lá por você, n-i-n-g-u-é-m. Isso não se chama solidão, eu acho. Isso é alguma coisa que eu não sei explicar, e que alguém só saberia entender se convivesse comigo nas mesmas situações, e vivesse praticamente as mesmas coisas.

Vocês não têm idéia. Vocês não sabem o que é viver em uma cidade completamente apática, uma cidade completamente repressora e reprimida. Ninguém saberia, eu acho. Ninguém sabe o que é viver em uma montanha russa que a qualquer momento vai soltar os pinos e tudo vai desabar.

Vocês não sabem que eu choro no banheiro, e só no banheiro, e nas outras vezes, eu choro digitando. Parece ridículo falar, mas eu só choro quando tenho tempo, isso: quando tenho tempo. Isso é ridículo.

Eu não sou ninguém e eu não tenho ninguém. E eu fico me perguntando qual é o motivo disso tudo e por que eu estou aqui agora. Qual o motivo? Existe algum sentido, senão... Eu fico me perguntando se a vida é essa espécie de dor intercalada com espaços de euforia e de paixão e de prazer e de alegria. Eu acho que eu começo a entender agora porque muitas pessoas buscam coisas alheias a si mesmas: acho que é porque é difícil encontrar algo verdadeiro nessa vida. É difícil encontrar algo pelo qual você acredite e queira lutar por isso. É difícil não pensar no futuro sem pensar no dinheiro. É difícil. É difícil. [...]

[...] Mas eu tento não me importar. Eu queria ser alguém, eu vou tentar ser alguém. Eu vou deixar minha marca no mundo de alguma forma, mesmo que sozinha – sem nada, e sem ninguém, mesmo que para isso eu tenha que sacrificar muito do que ainda restou em mim, mesmo que eu tenha que escrever palavras dolorosas e incomodas, mesmo que eu tenha que te fazer chorar. Eu só preciso de uma chance.

05/12/2008

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mas eu tenho muito medo das coisas indefinidas.

do talvez.

eu gosto de estabilidade. porque eu, por mim mesma, já sou inconstante demais.

oh well, okay