14/11/2007

Anotações Insensatas

Só agora me dei conta da densidade do conto do Caio Fernando Abreu, que se chama anotações insensatas.

"Mas não se pode agir assim, a amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais, preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby."

Só agora entendi que o mundo pode girar de cabeça para baixo, e eu, que antes estava em situação de "você me enjoou?", agora estou em situação de "puxa, tenho medo do normal, baby". Pois é, eis que o mundo gira, e onde você está hoje, amanhã você poderá estar em um lugar completamente diferente, sim, sim. É estranho ter que ver todas essas coisas, na verdade dói, dói em um aperto de: "sim, uma pessoa não é um doce que enjoa, você tem que entender isso". Por mais que eu tente entender, ou pior, tente por tudo não cansar de todas as coisas bonitas, todo o carinho, todo o amor, ainda assim não consigo não enjoar. Eis que o meu querido amor Caio, novamente no mesmo conto, me fala:

"Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas quietas e limpas, o perfume adocicado das madressilvas roubadas e o bolo de chocolate intocado no refrigerador — até a televisão falar da explosão nuclear subterrânea. Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós. Afirmou, depois acendeu o cigarro, reformulou, repetiu, acrescentou esta interrogação: não suportamos mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não, não suportamos essa doçura."

E assim, chego a conclusão de que o Caio é o homem de todas as minhas palavras. Também vejo que isso tudo se resume aquela frase super clichê que diz: "Quem eu amo não me ama, quem me ama eu não amo" Ah, ah, ah, é que gostamos da Fome, a Fome maiúscula, estamos sempre querendo mais, mais, mais, e quando nos dão demais, em excesso, como fica a nossa Fome? Eu queria te dizer, do fundo do coração, que eu sinto muito, mas que sim, não suportamos essa doçura, não sei se suporto essa doçura, por mais que queira.