25/01/2008

Algo certamente assim:

"sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía vezenquando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando olhando e pensando meu deus ah meu deus como você me dói vezenquando."

Porque se não doesse não teria graça. Não teria salvamento. Não teria saudade. Não teria gosto. Não seria doce, não seria doce. Que seja doce, meu bem. Eu sei que você está fugindo de todas as formas de falta – da doçura, da saudade, do encontro. Ah, que cotidiano fatídico estamos atravessando. Assim, as ruas, as pessoas, a chuva, a chuva! Nesse exato momento cai uma chuva fina. Para uma cidade de praticamente 35ºC, no meio do sertão central, isso é praticamente impossível, meio impossível. Talvez ela esteja caindo para me fazer lembrar da nossa chuva fina. Talvez não. Talvez seja uma ilusão, mas de fato agora estou pensando em você. Thinking, thinking, ah, como você me dói vezenquando.

27/11/2007

... Porque meu silêncio já não é uma omissão.

"Só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte. E começas a falar."




..Hum, isso é difícil. isso é muito difícil. Como sempre, as palavras do Caio, meu Deus, o homem das minhas palavras, ele não existe. Eis que ele diz:

"[...] mas dirás assim, por exemplo, como você sabe, sim como você sabe, a gente, as pessoas, infelizmente têm, temos, essa coisa, emoções, mas te deténs, infelizmente? o outro talvez perguntaria por que infelizmente? então dirás rápido, para não desviar-te demasiado do que estabeleceste, qualquer coisa como seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente, insistirás, infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos - emoções."

Talvez por isso eu não me censure tanto. É, as pessoas realmente esperam coisas que talvez não correspondam ao que o outro deseja. Mas sim, tenho, ou temos - emoções. Eu sei que espero mil coisas de ti, assim, como quem sabe - não some? Também sei que isso é complicado, que isso é o que eu desejo, e talvez não possa corresponder ao que o outro deseja. Mas tenho emoções, insisto - sempre. Não sei dizer o que eu sinto quando essas coisas acontecem, acho que uma mesclagem de insegurança com saudade, dor, medo. Não sei lidar com essas coisas - não sei se consigo. Acho que sempre vou ser como o Caio - blue and lonely. Deixe que a loucura escorra em tuas veias, sim Caio, eu deixo, já deixei faz tempo, e talvez ela esteja escorrendo em minhas veias. Eles - os outros - já não sabem, já não conhecem, já não sentem. Não, eu não vou mais falar sobre os poços, eu acho que cansei de versar sobre a minha condição...

Se pudesse sairia voando por aí, totalmente sem destino, como se em cada nova esquina um mundo de possibilidades se abrisse para mim.
Estou cansada, quase sem forças para continuar, penso em continuar quase que para desistir, talvez você não entenda mas - temos, tenho - emoções.
Talvez esteja pedindo demais, a Fome, em F maiúsculo, e é como se há cada novo segundo você se distanciasse mais, não estou mais vendo, não enxergo mais.
Desculpa amor, mas tenho Fome, em F maiúsculo. Não estou acostumada com o amor, já perdi toda a noção de quase todas as coisas, só me acostumei com aquela velha condição de blue and lonely.
E o que eu sinto não sei dizer.


"Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam uma nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito poder de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos mesmo meio tudo isso, não tem jeito, e tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olivia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Wim Wenders, mais Cecília Meireles que Nélson Rodrigues. Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca na minha mão, eu toco na sua. Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão Cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas Contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente mas penso tanto em você que na hora de dormir vezenquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo."


21/11/2007

They let Lisa go blind



"She looks like a queen, but if you knew what's going on in her life"..



Belle está bem, mas oh, Sebastian, ele foi muito longe novamente. Essa música retrata o que está acontecendo agora na minha vida. Sim, sincronias cotidianas - coisas estranhas acontecem o tempo inteiro. Posso até chorar por três dias e dormir por duas noites, mas ainda assim vou ter implícito na minha caminhada a palavra continuar.

Eu tenho que confessar que ouvir sua voz me traquilizou completamente, me senti no céu, protegida pelo melhor anjo. A sua voz, a sua preocupação, a sua presença-ausência, ah. Deu-me uma vontade de pegar o primeiro ônibus para sussurrar no seu ouvido que eu gosto tanto, amor.. que eu estou tão feliz, que você me faz feliz. E mesmo assim, com todas as coisas estranhas acontecendo, sei que pelo menos
nos últimos dez meses você foi a única coisa essencial e verdadeira que me aconteceu.

Ela achou que seria legal tentar fotografia...


E o mais lindo de tudo é saber que você não deixará Lisa ficar cega.




19/11/2007

Ter fé e ver coragem no amor




Meu Deus, como amar é bobo, como amar é bobo. Como se ver amando é bobo, simplesmente. Fazia tempo que não sentia essa coisa de amar, de achar que tudo é colorido, desde a nuvem branca até o céu cinza, possivelmente chuvoso. Como é bobo ouvir uma música e ficar pensando, essa parece, essa não parece, nossa, essa é a nossa cara! Como é bobo pensar não mais em mim, mas em nós. Como o medo vem, assim, meio misturado numa nostalgia sem dó nem piedade. Como nos perdemos pensando no amor - em suas múltiplas fórmulas de se atingir a felicidade, simplesmente, a felicidade. Sentir que a vida pode ser obviamente mais do que isso, que sair de casa já é se aventurar. Ah, como a minha querida amiga Lara estava certa em todos os segundos, quando disse que depois de Fulano, vai ter Beltrano, Cicrano, ou qualquer ano's que seja. No momento, naquele exato momento, parece ser tudo tão grande, parece tudo mais tudo tão forte que a gente realmente chega a pensar: e se eu não amar mais ninguém na vida? Eu sei, eu sei sempre tem aquela pessoa que marca a gente para sempre, claro, sempre tem, mas virão outros, acredite.

Eu sei que daqui uns dias tudo pode se acabar, e a promessa de amor quase eterno chegar ao fim. Eu sei que vou sofrer, vou pensar que nada dá certo para mim, nunca dá. Eu tenho medo disso acontecer, de simplesmente se esvair, mas pelo menos no final eu vou saber que tive um encontro inesquecível, que o mundo conspirava ao nosso favor, mesmo que por só um momento. Que delírio, que amor, você. Tudo em você era (e continua sendo), lindo. Até o modo de não falar, de silenciar, de me olhar, de me paralisar. Até no jeito que toma o sorvete, que balança as pernas - nervosamente- e nessas horas a vida era tão, mais tão belo. Quando te deixei ir, quando nos deixamos ir, você disse que tinha tanta coisa para falar, mas que simplesmente não sabia como. E doía em mim, em você, talvez em nós, o momento da nossa partida e eventual separação. Você deve ser minha fonte de inspiração, minha fonte de sobrevivência, ainda que por algum momento. Não importa, amor, simplesmente não importa, se no final das contas as coisas não derem certo. Tentei, tentamos, e para sempre vou me lembrar daquele domingo, daquele caminho, daquele pôr-do-sol, daquele vento, daquelas andorinhas, do seu jeito de falar, de gesticular, de me olhar, de me deixar sem graça, de arrumar o cabelo e dizer que fica sem paciência. De repente, não mais que de repente, amor, todo esse mundo feio e sujo, se tornou assim super lindo, super colorido. Confesso que tenho medo de perder tudo isso que, em apenas alguns dias, consegui. Mas toda vez que penso nisso, tento colocar na minha cabeça que foi tão único, que eu poderia trocar mil encontros sem graça por esse único encontro, por esse único amor.

"You and me alone, sheer simplicity"..

14/11/2007

Anotações Insensatas

Só agora me dei conta da densidade do conto do Caio Fernando Abreu, que se chama anotações insensatas.

"Mas não se pode agir assim, a amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais, preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby."

Só agora entendi que o mundo pode girar de cabeça para baixo, e eu, que antes estava em situação de "você me enjoou?", agora estou em situação de "puxa, tenho medo do normal, baby". Pois é, eis que o mundo gira, e onde você está hoje, amanhã você poderá estar em um lugar completamente diferente, sim, sim. É estranho ter que ver todas essas coisas, na verdade dói, dói em um aperto de: "sim, uma pessoa não é um doce que enjoa, você tem que entender isso". Por mais que eu tente entender, ou pior, tente por tudo não cansar de todas as coisas bonitas, todo o carinho, todo o amor, ainda assim não consigo não enjoar. Eis que o meu querido amor Caio, novamente no mesmo conto, me fala:

"Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas quietas e limpas, o perfume adocicado das madressilvas roubadas e o bolo de chocolate intocado no refrigerador — até a televisão falar da explosão nuclear subterrânea. Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós. Afirmou, depois acendeu o cigarro, reformulou, repetiu, acrescentou esta interrogação: não suportamos mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não, não suportamos essa doçura."

E assim, chego a conclusão de que o Caio é o homem de todas as minhas palavras. Também vejo que isso tudo se resume aquela frase super clichê que diz: "Quem eu amo não me ama, quem me ama eu não amo" Ah, ah, ah, é que gostamos da Fome, a Fome maiúscula, estamos sempre querendo mais, mais, mais, e quando nos dão demais, em excesso, como fica a nossa Fome? Eu queria te dizer, do fundo do coração, que eu sinto muito, mas que sim, não suportamos essa doçura, não sei se suporto essa doçura, por mais que queira.

05/11/2007

Tempo de delicadeza

"Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente.
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; (...)
Sou um meigo energúmeno.
Não sou bom nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado.
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida como um lobo."

Está aí: porque somos ferozes precisamos ser delicados. Os que não puderem ser puramente delicados, que o sejam ferozmente delicados.
Houve um tempo em que se era delicado. E Rimbaud, que aos dezessete anos já tinha feito sua obra poética, é quem disse um dia: "Por delicadeza, eu perdi minha vida".


Tempo de delicadeza - Affonso Romano de Sant'Anna