Lião é filha de pai alemão e mãe baiana. Estudante de Ciências Sociais, é ativista da esquerda clandestina da época. Vive mergulhada na contestação dos valores e ideais da sociedade, rodeada de recortes, panfletos e estatísticas.
Ana Clara estudava Psicologia, mas interrompe os estudos. Sua vida pessoal é complicadíssima, sua infância foi pobre, sem pai, e mãe prostituída. Possui um pretendente "salvacionista", mas ama a Max, com quem embarca no mundo das drogas.)
Sobre coisas e pessoas. Sobre pessoas e coisas. Se fosse para me colocar em alguma das três vidas, qual seria a mais adequada? Diria que a minha seria a da Ana Clara. Tirando algumas coisas é claro. Digamos que vida pessoal complicadissima é um traço meu. Psicologia. pretendente "salvacionista" que algum dia vai aparecer, talvez.. mas ama outra pessoa, com quem embarca no mundo das solidões, das impossibilidades. Vive num mundo de fantasias. Isolada em algum quarto remói os problemas de toda a vida. Que estranho, sabe. Sobre pessoas e coisas.
"Entrei na cozinha. Que cara é essa? estranhou a Custódia. Encolhi os ombros e ajudei a embrulhar o peru no papel-manteiga. Vamos depressa que a gente está atrasada, ela resmungou me pegando pelo braço. Parou um pouco para me examinar melhor.— Mas o que aconteceu, você está chorando? Enxuguei a cara na barra da saia.— Me deu uma pontada no dente.— Foi naquele que o dentista chumbou? Quer a Cera do Doutor Lustosa?— Deu só uma pontada, já parou de doer.— Pegue o meu lenço, ela disse abrindo a sacola. Ofereceu-me o lenço de algodão branco, bem dobrado. Na calçada deserta ela ainda parou um pouco para prender a fivela no cabelo. O peru era meio velho mas acho que ficou bom.Enxuguei os olhos com raiva e cruzei os braços contra o peito, outra vez o tremor? Fomos andando lado a lado e em silêncio."
Sobre o silêncio. Sobre a importância para alguns e a futilidade para outros. Para isso, vou escrever uma besteira qualquer, nem que seja para passar o tempo:
"Recordo-me dos nossos dias, mas só consigo lembrar mais intensamente ouvindo a nossa música. Parece dizer muito mais, às vezes. A voz, o tom, o violão ou a guitarra gritam esperando que eu possa escrever algo mais sobre nós. Mas não sei, eu tento lembrar, ao passo que consigo esquecer. Tudo aquilo fica vivo na memória, mas em outra parte da memória. Os antigos a chamam de 'memória do coração'. Eu, honestamente, não sei defini-la. A única coisa que me faz escrever é sobre o nosso silêncio. Assim, tão bobo. Penso e repenso mil vezes o meu único desejo: sentar ao seu lado e esperar o tempo passar. Eu vou esperar porque assim me sinto mais segura. E com ela, ali, só olhando para mim, seria mais que o bastante para confessar mil juras de amor. Então ela diz: 'você vai ficar quieta assim? vai, não fica quieta!'. O silêncio perdura. Posso definir: um filme passa refletindo nos meus olhos e eu fico lembrando de tudo que nós passamos. Nenhuma palavra dita. Dói, porque é só silêncio. Mas alivia. Liberta. Vive. 'Como viver sem você?', fica martelando na minha cabeça antes de introduzir qualquer discussão. 'O que eu posso fazer?'. Se eu pudesse ao menos ter um instante ao seu lado, no mais absoluto silêncio, eu creio que você me entenderia. Sem mais palavras, só silêncio. De vez em quando um pássaro quebra a nossa concentração. Ele voa, voa livre. 'Preciso falar que a amo', penso. Despenso e volta o silêncio. Ela poderia olhar para mim com aquele jeito bobo de ser e me dizer que tudo estava bem. Mas não, era o fim. 'Mesmo que tudo se acabe permanecerá a amizade'. Creio que não, pensava. 'Prefiro morrer a ter que viver sem você'. Daí surgiram as palavras:
'Cansei de tentar e olhar para um (novo) rosto lembrando de você'
silêncio. fim"
"Entrei na cozinha. Que cara é essa? estranhou a Custódia. Encolhi os ombros e ajudei a embrulhar o peru no papel-manteiga. Vamos depressa que a gente está atrasada, ela resmungou me pegando pelo braço. Parou um pouco para me examinar melhor.— Mas o que aconteceu, você está chorando? Enxuguei a cara na barra da saia.— Me deu uma pontada no dente.— Foi naquele que o dentista chumbou? Quer a Cera do Doutor Lustosa?— Deu só uma pontada, já parou de doer.— Pegue o meu lenço, ela disse abrindo a sacola. Ofereceu-me o lenço de algodão branco, bem dobrado. Na calçada deserta ela ainda parou um pouco para prender a fivela no cabelo. O peru era meio velho mas acho que ficou bom.Enxuguei os olhos com raiva e cruzei os braços contra o peito, outra vez o tremor? Fomos andando lado a lado e em silêncio."
Sobre o silêncio. Sobre a importância para alguns e a futilidade para outros. Para isso, vou escrever uma besteira qualquer, nem que seja para passar o tempo:
"Recordo-me dos nossos dias, mas só consigo lembrar mais intensamente ouvindo a nossa música. Parece dizer muito mais, às vezes. A voz, o tom, o violão ou a guitarra gritam esperando que eu possa escrever algo mais sobre nós. Mas não sei, eu tento lembrar, ao passo que consigo esquecer. Tudo aquilo fica vivo na memória, mas em outra parte da memória. Os antigos a chamam de 'memória do coração'. Eu, honestamente, não sei defini-la. A única coisa que me faz escrever é sobre o nosso silêncio. Assim, tão bobo. Penso e repenso mil vezes o meu único desejo: sentar ao seu lado e esperar o tempo passar. Eu vou esperar porque assim me sinto mais segura. E com ela, ali, só olhando para mim, seria mais que o bastante para confessar mil juras de amor. Então ela diz: 'você vai ficar quieta assim? vai, não fica quieta!'. O silêncio perdura. Posso definir: um filme passa refletindo nos meus olhos e eu fico lembrando de tudo que nós passamos. Nenhuma palavra dita. Dói, porque é só silêncio. Mas alivia. Liberta. Vive. 'Como viver sem você?', fica martelando na minha cabeça antes de introduzir qualquer discussão. 'O que eu posso fazer?'. Se eu pudesse ao menos ter um instante ao seu lado, no mais absoluto silêncio, eu creio que você me entenderia. Sem mais palavras, só silêncio. De vez em quando um pássaro quebra a nossa concentração. Ele voa, voa livre. 'Preciso falar que a amo', penso. Despenso e volta o silêncio. Ela poderia olhar para mim com aquele jeito bobo de ser e me dizer que tudo estava bem. Mas não, era o fim. 'Mesmo que tudo se acabe permanecerá a amizade'. Creio que não, pensava. 'Prefiro morrer a ter que viver sem você'. Daí surgiram as palavras:
'Cansei de tentar e olhar para um (novo) rosto lembrando de você'
silêncio. fim"


